A firmeza do arpoador

Estou relendo o livro “O pastor contemplativo”, escrito por Eugene Peterson e publicado pela primeira vez em 1989. Nesse livro, Peterson faz um alerta sobre a necessidade de redefinirmos o termo pastor em uma sociedade que valoriza agendas repletas e estresse como evidências de importância. Compartilho um pequeno texto desse livro para, quem sabe, despertar seu interesse nessa leitura.

“No livro Moby Dick, de Herman Melville, há um episódio turbulento em que um baleeiro enfrenta o vento forte no oceano revolto, perseguindo a grande baleia branca, Moby Dick. Os marinheiros trabalham arduamente, com cada músculo tenso e toda a atenção e energia concentradas na difícil tarefa. O conflito cósmico entre o bem e o mal se faz presente: o mar caótico e o monstro marinho demoníaco contra o homem moralmente ultrajado, o Capitão Acabe. Na embarcação, porém, há alguém que não participa da agitação do momento. Não tem um remo nas mãos, não transpira, não grita. Mostra-se impassível em meio ao ruído e às imprecações. Esse homem é o arpoador, calado e firme, à espera. Lê-se então a seguinte sentença: ´A fim de assegurar uma maior eficiência no arremesso, os arpoadores deste mundo devem se posicionar em meio à inatividade e não em meio à labuta´.

A sentença de Melville é um texto a ser colocado junto ao do salmista: ´Parem de lutar! Saibam que eu sou Deus´(Sl. 46:10); e da mensagem de Isaías: ´No arrependimento e no descanso está a salvação de vocês, na quietude e na confiança está o seu vigor´ (Is. 30:15).

Os pastores sabem que há algo radicalmente errado com o mundo. Estamos igualmente engajados em fazer alguma coisa a respeito. O estímulo da consciência, a lembrança de antigas ofensas e o desafio do mandamento bíblico nos envolvem no mar anárquico do mundo. A baleia branca, símbolo do mal, e o capitão aleijado, personificação da justiça violada, se encontram na batalha. A ficção representa um conflito espiritual. Em um mundo assim, o ruído é inevitável e uma energia imensa é despendida. Se, porém, não houver arpoador no barco, a caça não terá um final feliz. Se o arpoador estiver exausto, se tiver abandonado sua tarefa e trabalhado como remador, não estará pronto e não fará boa mira quando tiver de arremessar o arpão.

De certa forma, sempre parece haver mais incentivo para assumirmos o trabalho do remador, labutando arduamente em prol de uma causa moral, gastando nossa energia numa luta que, sabemos, terá consequências perenes. Sempre parece também mais dramático assumir a atitude ultrajada de um Capitão Acabe, obcecado com a ideia de vingança e retaliação, remoendo silenciosamente a lembrança do dano antigo afligido pelo inimigo. Há, no entanto, outros trabalhos importantes a serem feitos. Alguém deve atirar o dardo. Devem existir os arpoadores.

As metáforas usadas por Jesus para descrever o ministério são frequentemente imagens de coisas simples, pequenas e tranquilas, mas que produzem efeitos bem maiores do que sua aparência: sal, fermento, semente. Nossa cultura enfatiza o contrário: o que é grande, numeroso, ruidoso. Torna-se então necessário que os pastores se aliem deliberadamente aos arpoadores silenciosos, preparados, e não se atirem frenéticos aos remos. É muito mais urgente adquirirmos as habilidades do arpoador do que os músculos do remador. É muito mais bíblico aprendermos a quietude e a atenção diante de Deus do que sermos vencidos pelo que John Oman afirmou ser os perigos gêmeos do ministério: ´afobação e preocupação´. A afobação dissipa a energia e a preocupação a emperra.”

(Eugene Peterson, in: “O pastor contemplativo: descobrindo significado em meio ao ativismo”, Editora Mundo Cristão, p.32-33)

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