Ramos satisfeitos

Finalizei há alguns dias a releitura do livro de meu querido amigo pastor Carlos McCord, “A vida que satisfaz” (Alpha Conteúdos). Compartilhei no último post um texto desse livro e faço novamente aqui o destaque de mais um trecho para encorajá-lo a conhecer ou se aprofundar também nesse tema sobre a essência da vida cristã, baseado no texto do evangelho de João 15, as palavras de Jesus sobre permanecer na Videira.

“Uma comunidade cristã verdadeira tem mais a ver com o que é recebido de Deus do que com o quanto é recebido da comunidade. Esse conceito é o inverso da maneira pela qual fui ensinado como pastor para liderar uma igreja.

Fui ensinado que a base de medida da saúde da igreja era a atividade. Assim, o calendário da igreja que organizava muitas vezes existia para produzir satisfação suficiente para manter todos ocupados e acrescentar novos membros à igreja. Na superfície era algo nobre, mas logo abaixo estava o medo de que os insatisfeitos pudessem sair e procurar uma igreja ´melhor´ se não os agradássemos.

É difícil imaginar que ramos satisfeitos em uma maravilhosa vinha queiram pertencer a outra vinha por conta da insatisfação. Porém, no contexto da igreja moderna, não é difícil observar cristãos constantemente procurando pela melhor vinha da cidade. Esse movimento causado pela insatisfação revela algo bem diferente que o direcionamento divino a seus filhos satisfeitos para que participem de uma outra igreja. Revela uma necessidade de se alimentar de outros ramos em vez de alimentar-se da Videira.

É verdade que as pessoas serviam umas às outras com paixão nas igrejas em que tive o privilégio de liderar. Ainda assim, o que observei foram pessoas medindo constantemente a saúde da nossa igreja, como se a qualquer momento precisassem sair para salvar suas vidas cristãs. Às vezes, parecíamos mais clientes e consumidores do que ramos cheios de frutos. O que eu profundamente desejava era que as pessoas tomassem suas decisões a partir da sua satisfação e não da sua insatisfação.

Ao contrastar a minha realidade de liderança com os ensinamentos de Jesus sobre a vida na vinha, percebi imediatamente que estávamos tentando ser uma fonte de satisfação para as pessoas, ao invés de levá-las à Videira para que ela fosse a sua fonte.

Lembro-me de estar sentado em meu escritório e imaginar uma pessoa entrando pela porta da nossa igreja e perguntar: ´Se eu viesse para cá, o que vocês fariam comigo?´ Imediatamente, pensei no ´primeiro descanso´ da salvação e como poderíamos ajudá-lo a entrar nesse descanso por meio do evangelho de Cristo. ´Se você vier, falaremos a você a respeito da perfeita vida de Jesus que lhe foi dada há dois mil anos no Calvário. Contaríamos como Jesus ressuscitou da morte e como você pode ter certeza de que seus pecados estão perdoados para sempre.´

Então imaginei a mesma pessoa dizendo: ´E depois disso, o que você pretende em relação a mim?´ O ´velho eu´ teria começado uma lista de atividades e mobilização para o serviço. Mas aquele dia foi diferente. Imaginei-me dizendo a essa querida pessoa: ´Quero ensinar-lhe a entrar no ´segundo descanso´. Quero ajudá-lo a desfrutar da viva presença de Jesus na sua vida até que você fique tão satisfeito em Deus que chegue ao ponto de dar frutos da glória Dele aqui entre nós e também no mundo. Quero que descubra a satisfação divina vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Quero ajudá-lo a ser um ramo´. Ao ter esses pensamentos naquele dia, eu chorei. E choro até hoje.”

(McCORD, CarlosA vida que satisfaz. Alpha Conteúdos; pp.111-113)

A Vinha

Estou relendo nesses últimos dias o delicioso e profundo livro de meu querido amigo pastor Carlos McCord, “A vida que satisfaz” (Alpha Conteúdos). Trata sobre a essência do discipulado, baseado no texto do evangelho de João 15, as palavras de Jesus sobre permanecer na Videira na vinha do Pai. O ramo que permanece na Videira, esse dá o fruto divino da Videira. O ramo não produz, ele recebe e compartilha.

Logo na introdução ele explica que as “palavras aqui apontam para dois lugares – o Calvário e a Videira – e para uma Pessoa. Esses dois locais muito reais revelam duas perfeições de Jesus por nós e em nós. Quem vier a estes lugares não terá falta de nada em sua jornada.” (p.19). Essa frase já vale a aquisição e leitura do livro, mas compartilho a seguir mais um trecho onde ele fala sobre “a Vinha”, para te encorajar a descobrir essa obra.

“Na Videira, nenhum ramo precisa de outro para viver, mas nenhum deles pode ser sozinho a vinha que o Agricultor precisa e deseja. A alegria que um único ramo traz não se compara a alegria que uma vinha inteira pode produzir quando suas satisfações são compartilhadas.

A mesma coisa acontece na comunidade de Jesus chamada igreja. Devemos ser a comunidade unida em Jesus que escolheu não viver sem o outro. Para que isso aconteça dia a dia, precisamos permanecer no amor que Deus tem para nós em Jesus, que nos satisfaz totalmente. Um amor que diz: ´Escolho não viver sem você. Vou permanecer com você eternamente com um coração aberto.´ Esse amor eterno é a vida eterna que nos é dada em Jesus.

Lembro de dizer às minhas filhas que só estariam prontas para se casar quando não precisassem de marido para serem felizes. Talvez inconscientemente, achava que isso adiaria as coisas por um tempo. Mas depois de anos e anos de aconselhamento matrimonial, convenci-me de que a busca do casamento para a felicidade estava matando os casamentos. A necessidade pessoal de felicidade que as pessoas traziam para o casamento colocava muita pressão no relacionamento. Já vira esse filme o suficiente.

Antes que escolhessem um homem para amar por toda uma vida, queria ver minhas filhas felizes o suficiente para que não precisassem de um homem. Queria ouvi-las dizer: ´Não preciso me casar para ser feliz, mas escolho, em minha felicidade em Jesus, casar-me.´ Graças a Deus, elas se casaram felizes ao invés de se casaram para serem felizes.

Somente ramos que permanecem em Jesus são capazes de amar a partir da satisfação e não para ter satisfação. Os ramos conseguem amar porque permanecem no amor. A igreja é a comunidade de Jesus que pode sustentar seu amor, com uns amando aos outros e ao mundo. Como é triste quando isso não acontece. É triste para a igreja, para o mundo e para a glória de Deus.”

(McCORD, Carlos. A vida que satisfaz. Alpha Conteúdos; pp.110-111)

Iceberg

Peter Scazerro é pastor fundador da New Life Fellowship, em Queens, New York, um dos melhores autores a tratar do tema de discipulado, espiritualidade e liderança emocionalmente saudável; autor de 3 livros já traduzidos para o português (Uma igreja emocionalmente saudável; Espiritualidade emocionalmente saudável; e O líder emocionalmente saudável) e um mais recente publicado ano passado (Emotionally Healthy Discipleship).

Acabo de retornar de um período de encontros com um pequeno grupo de líderes cristãos trabalhando o tema sobre o que é uma liderança autêntica que segue verdadeiramente Jesus. Em algum momento, um dos participantes compartilhou um famoso texto de C. S. Lewis que Scazzero também cita em seu livro “Uma Igreja Emocionalmente Saudável”. Reproduzo a seguir um pequeno trecho para encorajá-lo:

“Os seres humanos, assim como os icebergs, têm muitas camadas abaixo da superfície.

(…) cerca de apenas 10% de um iceberg é visível na superfície. Essa é a parte da nossa vida de que temos consciência. Lembre-se, contudo, de que o Titanic afundou porque colidiu com uma parte dos 90% submersos de um iceberg. A maioria dos líderes naufraga ou vive de forma incoerente por causa de forças e motivações que estão abaixo da superfície da vida que eles nem mesmo cogitam.

Salomão disse com sabedoria: ´Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida´(Provérbios 4:23). Confiar na graça e no amor de Deus para poder olhar para dentro com profundidade pode ser assustador.

(…) Jesus disse que a verdade nos libertará (João 8:32). A honestidade exige que olhemos para toda a verdade, e eu a chamo de ´descoberta´ porque, assim como Adão e Eva, nós preferimos nos esconder da verdade e proteger a nós mesmos do que nos apresentarmos descobertos, nus, diante de Deus. Desde o começo dos tempos, esse tem sido um problema do pecado (Gênesis 3:1-19). É ´doloroso´ porque, embora a verdade acabe por nos libertar e nos aproximar de Deus, a princípio é algo que preferimos evitar.

Uma das batalhas de As crônicas de Nárnia, A viagem do peregrino da alvorada, de C. S. Lewis, retrata como é seguir Deus e olhar profunda e seriamente para o interior. Eustáquio, um menino, transforma-se em um dragão grande e feio em consequência do seu egoísmo, da sua teimosia e da sua incredulidade. Ele quer mudar e voltar a ser um menino, mas não consegue fazer isso. Por fim, o grande leão Aslan (representando Jesus) aparece para ele e o guia a uma bela nascente para se banhar. Mas, como ele é um dragão, não pode entrar na nascente.

Aslan diz a ele para se despir. Eustáquio se lembra de que pode tirar a pele como uma cobra. Ele tira uma pele sozinho, joga no chão e sente-se melhor. Então, quando vai em direção à fonte, percebe que ainda há mais uma camada dura, áspera e escamosa sobre ele. Frustrado, sentindo dor e ansiando entrar naquele belo banho, ele pergunta a si mesmo: `Quantas peles preciso despir?´.

Depois de três camadas, ele desiste, percebendo que não consegue. Aslan diz: ´Deixe que eu tire a sua pele´. Ao que Eustáquio diz:

´Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E, quando começou a tirar-me a pele, senti a pior dor da minha vida. […] Nessa altura agarrou-me […] e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor do braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente. […] Depois de certo tempo, o leão me tirou da água […] e com suas patas vestiu-me com uma roupa nova, esta aqui.´

C. S. Lewis descreve muito bem: Ao seguirmos nessa direção radicalmente nova, é como se as garras de Deus nos penetrassem tão profundamente que cortam até o próprio coração.

Deus muitas vezes usa a dor para nos fazer mudar. A minha experiência como pastor, trabalhando com pessoas por mais de vinte e dois anos, convenceu-me de que, a menos que haja desconforto e angústia suficientes, a maioria de nós não se entrega ao trabalho duro de olhar para o interior com seriedade e profundidade. E parece que isso se aplica especialmente aos homens e às mulheres de meia-idade. Como se diz acertadamente: ´Mudamos o nosso comportamento quando a dor de permanecer igual passa a ser maior do que a dor da mudança´.”

(SCAZZERO, Peter. Igreja emocionalmente saudável. Editora Vida, 2014, p.97-100)

Evangelização e a soberania de Deus

Há algumas semanas estamos estudando a carta de Paulo aos Efésios em nossa comunidade (mensagens estão disponíveis no canal de YouTube ou Spotify, link em nosso site: http://www.comunabatista.com).

Paulo trata de temas importantes e profundos logo no início dessa pequena carta – termos sidos eleitos, escolhidos, predestinados, adotados, bençãos espirituais, propósito, para louvor de sua glória e outros.

Indiquei para quem deseja aprender mais sobre esses temas, o livro “Evangelização e a soberania de Deus: se Deus é soberano na salvação, por que evangelizar?” (1961), escrito pelo teólogo britânico J. I. Packer (1926-2020), anglicano evangélico, foi professor de teologia histórica e sistemática no Regent College (Vancouver, Canadá), autor também do clássico “O conhecimento de Deus” (ECC).

Esse livro é fruto de uma palestra ministrada em 1959 em uma conferência da Inter-Faculty Christian Union, em Londres. Destaco a seguir alguns trechos para encorajá-lo na leitura desse pequeno-grande livro, uma leitura essencial nesse tema.

“A oração do cristão não é uma tentativa de forçar a mão de Deus, mas um humilde reconhecimento da nossa impotência e dependência. Quando nos colocamos de joelhos, é porque sabemos muito bem que não somos nós que controlamos o mundo; não temos, portanto, o poder de satisfazer as nossas necessidades pela nossa própria força; tudo de bom que desejamos para nós mesmos e para os outros deve ser solicitado das mãos de Deus, quando o obtemos, se é que o obtemos, será como um presente das mãos dele .Se isso é verdade no que se refere ao nosso pão diário (e a oração do Senhor nos ensina que é), é muito mais verdade no que diz respeito aos bens espirituais. (…) o que fazemos toda vez que oramos é confessar a soberania de Deus e a nossa impotência. O próprio fato de o cristão orar é prova de que ele crê, sim, na soberania de Deus.” (p.11-12)

“(…) seria bastante esclarecedor refletir sobre o testemunho de Charles Simeon acerca da sua conversão, por meio de João Wesley, em 20 de dezembro de 1784 (a data encontra-se registrada no Wesley´s Journal): ´Meu caro, eu entendo que você é o que chamam de arminiano; e certas pessoas me chamam de calvinista; e por isso mesmo, suponho que as pessoas esperam ver-nos prontos para brigar um com o outro. Mas, antes de eu consentir em que se dê início ao combate, com sua licença, gostaria de lhe fazer algumas perguntas (…) Diga-me, por favor: você sente que é uma criatura tão depravada, mas tão depravada que nunca teria pensado em voltar para Deus, se Deus já não tivesse posto isso em seu coração antes?´ ´É verdade – diz o veterano – é isso mesmo.´ ´E você também se sentiria totalmente perdido se tivesse que recomendar-se a Deus, baseado em alguma coisa que você pudesse fazer, e considera a salvação como algo que se deu exclusivamente pelo sangue e justiça de Cristo?´ ´Sim, exclusivamente por Cristo.´ ´Mas então, meu caro, partindo do pressuposto de que você foi inicialmente salvo por Cristo, será que ainda assim você não teria, de uma maneira ou de outra, que salvar a si mesmo por suas próprias obras?´ ´É claro que não, pois eu devo ser salvo por Cristo do princípio ao fim.´ ´Admitindo, então, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, você, de um modo ou de outro, deve manter-se salvo por seu próprio poder?´ ´Não.´ ´Quer dizer, então, que você deve ser sustentado a cada hora e momento por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe?´ ´Sim, absolutamente.´ ´E quer dizer que toda a sua esperança está depositada na graça e na misericórdia de Deus para sustentá-lo, até que venha o seu reino celestial?´ ´Certamente, eu estaria completamente desesperado se não fosse ele.´ ´Então, meu caro, com sua permissão vou levantar novamente a minha espada, pois isso não é nada mais nada menos do que o meu Calvinismo; são as minhas teses da eleição, justificação pela fé, da perseverança final, em essência, tudo o que eu defendo, e como o defendo; portanto, se lhe parecer bem, em vez de ficar tentando descobrir termos ou expressões que sejam motivo de briga entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas em que concordamos.´” (p.13-14)

“Quando você ora pelas pessoas não convertidas, você o faz pressupondo que é no poder de Deus que elas são conduzidas à fé. Você roga para que ele faça exatamente isso, e sua confiança em pedir repousa sobre a certeza de que ele é capaz de fazer o que você pede. E, de fato, ele é: a convicção que motiva suas intercessões é a verdade do próprio Deus, escrita em seu coração pelo Espírito Santo. Na oração, portanto (e quando o cristão ora está em seu estado mais são e sábio), você sabe que é Deus quem salva os homens; você sabe que o que faz os homens se voltarem a Deus é a própria obra graciosa dele de atraí-los para junto de si; e o conteúdo de suas orações é determinado por esse conhecimento. Assim, você reconhece e confessa a soberania da graça de Deus mediante sua prática de intercessão e, da mesma maneira, pela ação de graças por sua própria conversão. Assim procedem todos os cristãos, em toda parte.” (p.14-15)

“Enquanto estivermos sobre nossos próprios pés, podemos levantar vários argumentos em torno da questão, mas quando de joelhos, estamos todos de acordo.” (p.16)

(PACKER, J. I. Evangelização e a soberania de Deus; Editora Cultura Cristã)

Depressão espiritual

Como pode um livro publicado em 1964, baseado em uma série de mensagens pregadas na Westminster Chapel em Londres no ano de 1954, continuar a ser tão atual?

Quando trata-se do ministério do pastor galês Dr. David Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) isso é possível. Como Deus usou e ainda usa seus livros a falar ao meu coração a cada leitura (e releitura), caso deste clássico – “Depressão espiritual: suas causas e cura”, Editora PES.

Tive contato pela primeira vez com essa obra por volta de 1997 nos meus tempos de seminário ainda em Londres (e tive a honra de participar de alguns cultos nessa igreja). Estou relendo essa obra e parece um novo livro, apropriado aos questionamentos dessa grande crise na saúde mental e espiritual de tantas pessoas no dia-a-dia, de jovens a adultos.

A abordagem de Lloyd-Jones é profunda e urgente (sua mensagem se dirigia naquela época a uma geração que havia enfrentado duas grandes guerras mundiais e a uma grande depressão econômica), combina seu conhecimento como médico e seu discernimento espiritual. Uma leitura essencial para nos ajudar hoje.

A seguir, alguns trechos para encorajá-lo também a descobrir essa obra.

“Ao enfrentarmos o mundo moderno, com todas as suas perturbações e turbulências, com suas dificuldades e tristezas, nós, que nos dizemos cristãos e professamos o nome de Cristo, devemos representar a nossa fé diante dos outros de tal maneira que eles digam: ´Aí está a solução. Aí está a resposta´. Num mundo em que tudo perdeu o rumo, devemos nos sobressair como homens e mulheres caracterizados por uma alegria e segurança interior inabaláveis, apesar das circunstâncias e adversidades. Creio que concordarão comigo quando digo que este é um quadro que tanto o Antigo Testamento quanto o Novo apresentam do povo de Deus. Esses homens de Deus se sobressaíram porque, quaisquer que fossem as circunstâncias e condições, eles pareciam possuir um segredo que os capacitava a viver em triunfo, sendo mais do que vencedores. Portanto, é imprescindível que examinemos o problema da depressão espiritual muito de perto” (p.25).

“O tipo de pessoa que pensa que, desde o momento em que aceitamos o Senhor Jesus Cristo, todos os nossos problemas ficam para trás e ´viveremos felizes para sempre´ certamente sofrerá de depressão espiritual algum dia. Somos levados a esta vida maravilhosa, a esta condição, pela graça de Deus. Todavia, não devemos esquecer que contra e acima de nós existe outro poder. Pertencemos ao reino de Deus, mas a Bíblia nos previne que somos confrontados por outro reino, que também é um reino espiritual, e que nos ataca e sitia a toda hora. Enfrentamos uma ´luta da fé´, e ´a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais´ (Ef. 6:12). Por isso, temos que estar preparados para a ocorrência desta condição que estamos considerando, e sua manifestação em todos os tipos de pessoas e em muitas formas diferentes” (p.55-56).

“(…) o fato de que você se sente infeliz ou perturbado não significa que não seja um cristão. Na verdade, digo mais: se você nunca teve problema em sua vida cristã, duvido seriamente que realmente seja um cristão! Existe o que se poderia chamar de falsa paz, assim como há também crença no engano. Todo o Novo Testamento, bem como a história da Igreja através dos séculos, dão testemunho eloquente do fato de que esta é uma ´batalha da fé´, e não ter qualquer perturbação em sua alma está, portanto, longe de ser um bom sinal. Na verdade, é um sério sinal de que algo está radicalmente errado, e tenho uma boa razão para dizer isso, pois desde o momento em que nos tornamos cristãos, também nos tornamos os objetos especiais da atenção do diabo. Assim como ele assediou e atacou o Senhor Jesus, assim ele assedia e ataca todo o povo de Deus. ´Considerem motivo de grande alegria´, diz Tiago, ´o fato de vocês passarem por diversas provações.´ É assim que a sua fé é provada, pois isso não só é um teste da sua fé, mas de certa forma é também uma evidência de que você tem fé. É porque pertencemos a Deus que o diabo fará tudo o que puder para nos perturbar e abater. Ele não pode nos roubar a nossa salvação, graças a Deus, mas ele pode nos tornar miseráveis. Ele pode – se formos tolos a ponto de lhe dar ouvidos – limitar seriamente nossa alegria da salvação. E é isso que ele tenta fazer constantemente – e essa, por sua vez, é a razão por que temos esse ensino nas epístolas do Novo Testamento” (p.70-71).

“O que importa acima de tudo, caso você seja um cristão, não é o que foi antes, mas o que é hoje. Isso parece ridículo? É tão óbvio que a coisa importante não é o que você foi, e sim, o que é. Torna-se muito óbvio quando colocado desta forma, mas como é difícil ver isso quando o diabo está nos atacando! O apóstolo disse que ele não era digno de ser chamado apóstolo, porque tinha perseguido a Igreja de Deus; porém, ele continua dizendo: ´Mas, pela graça de Deus, sou o que sou´. O que importa o que eu fui? ´Sou o que sou´. Coloque nisso a sua ênfase. Não fique pensando o resto da vida sobre o que você foi. A essência da posição cristã é que você deve lembrar o que é. Certamente o passado permanece com todos os seus pecados. Entretanto, diga a si mesmo: Resgatado, curado, restaurado, perdoado, quem mais pode cantar Seus louvores como eu? ´Sou o que sou´ – não importa o que tenha sido o meu passado. E o que sou? Perdoado, reconciliado com Deus pelo sangue de Seu Filho derramado na cruz. Sou um filho de Deus. Fui adotado na família de Deus, e sou herdeiro com Cristo, co-herdeiro com Ele. Estou a caminho da glória. É isso que importa – não o que eu era, não o que eu fiz. Então, se o inimigo está atacando você nesta área, faça o que o apóstolo fez. Volte-se para ele e diga: ´O que está dizendo é verdade. Eu fui tudo o que você está dizendo. No entanto, não estou interessado no que eu era, mas no que sou, e sou o que sou pela graça de Deus!” (p.91-92)

“(…) não permitamos que o futuro hipoteque o nosso presente, nem permitamos que o passado o faça.” (p.104)

“(..) na vida cristã tudo é pela graça, do começo ao fim.” (p.131)

“A fé lembra o que as Escrituras chamam de ´grandíssimas e preciosas promessas´. A fé diz: ´Não posso admitir que Aquele que me trouxe até aqui vai me abandonar neste ponto. É impossível, não estaria de acordo com o caráter de Deus´. Então a fé, recusando-se a ser controlada pelas circunstâncias, lembra-se do que sabe e em que acredita.” (p.154)

Criados para conhecer a glória de Deus

Meu parceiro de café nas últimas semanas tem sido o livro “Uma glória peculiar”, escrito por John Piper.

Piper enfatiza que a glória de Deus brilha por toda sua palavra revelada e é o Espírito de Deus quem ilumina os olhos e os corações, dando entendimento ao ensino das Escrituras que se auto-autenticam e dão certeza à mente e satisfação ao coração. Um livro para fortalecer sua fé em Deus e em Sua Palavra.

Destaco apenas um trecho logo a seguir (refletindo sobre o texto de Romanos 1:18-21) para encorajar você também à leitura desse livro e principalmente, o prazer da leitura da Palavra de Deus.

“(…) entendo que Paulo quer dizer que, por sermos todos criados à imagem de Deus, com o destino original de refletir a glória de Deus, há traços desse desígnio em nossa alma. O pecado destronou a glória de Deus como nosso tesouro e prazer supremos, mas não destruiu o molde formado por Deus que esse destronamento deixou para trás.

Fomos criados para a glória de Deus. Nossa mente é planejada para conhecer a glória de Deus, e nosso coração é planejado para amar a glória de Deus. O anseio mais profundo da alma humana é conhecer e gozar a glória de Deus. Somos criados para isso. ´Trazei meus filhos de longe e minhas filhas, das extremidades da terra, a todos os que são chamados pelo meu nome, e os que criei para minha glória´ – diz o Senhor (Is. 43:6-7). Vê-la, gozá-la e mostrá-la – essa é a razão de nossa existência.

(…) Isso é o que Paulo pretende dizer ao declarar que todo ser humano conhece a Deus (Rm. 1:21). Há em cada coração humano um verdadeiro testemunho da realidade da glória de Deus no mundo e na Palavra. É o testemunho de um molde residual (como uma peça de quebra-cabeça é cortada para que somente uma peça especial se encaixe). O molde em nosso coração espera pelo encaixe de sua contraparte divina – a glória de Deus. É por isso que ver a glória de Deus é a cura de nossas vidas desordenadas. ´E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem´ (2 Co. 3:18). Há em cada alma um testemunho, embora obscuro, de que fomos criados para a glória de Deus.

Esse conhecimento é de tal natureza que, quando a glória de Deus rompe nossa cegueira, que é causada pelo pecado (1 Jo. 2:11) e agravada por Satanás (2 Co. 4:4), o conhecimento dessa glória é imediato, convincente e confirmado. É um conhecimento inabalável. A alma vê e conhece com a certeza inabalável de que este mundo é o mundo de Deus e esta Escritura é a Palavra de Deus.”

(John Piper in: “Uma glória peculiar – como a Bíblia se revela completamente verdadeira”, Editora Fiel, 2018, pp.271-273)

É domingo

‘1Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram óleos aromáticos para ungir o corpo de Jesus. 2E, bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, foram ao túmulo. 3Diziam umas às outras:

— Quem nos removerá a pedra da entrada do túmulo?

4E, olhando, viram que a pedra já estava removida. É que a pedra era muito grande. 5Entrando no túmulo, viram um jovem sentado ao lado direito, vestido de branco, e ficaram atemorizadas. 6Ele, porém, lhes disse:

— Não tenham medo! Vocês procuram Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; ele ressuscitou, não está aqui; vejam o lugar onde o tinham colocado.’

Marcos 16:1-6 NAA

É sábado

‘6Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. 7Dificilmente alguém morreria por um justo, embora por uma pessoa boa alguém talvez tenha coragem para morrer. 8Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores. ‘

Romanos 5:6-8 NAA

É sexta-feira

3Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e que sabe o que é padecer. E, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso.
4Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como aflito, ferido de Deus e oprimido. 5Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados.’

Isaías 53:3-5 NAA

A missão cristã no mundo moderno (J. Stott)

Li nos últimos dias o livro “A missão cristã no mundo moderno”, escrito por John Stott (1921-2011) publicado pela primeira vez em 1975. Nesse livro ele tenta definir biblicamente cinco palavras chave para compreendermos a missão da igreja no mundo: missão, evangelismo, diálogo, salvação e conversão.

A seguir, compartilho alguns de seus pensamentos para encorajá-lo na leitura desse livro desafiador a cada um de nós:

“(…) somos enviados ao mundo, como Jesus, para servir. Pois esta é a expressão natural de nosso amor pelo próximo. Nós amamos. Nós vamos. Nós servimos. E nisso não temos (ou pelo menos não deveríamos ter) segundas intenções. De fato, falta visibilidade ao evangelho se ele for apenas pregado, e falta credibilidade se nós que o pregamos estivermos interessados apenas na alma e não no bem-estar do corpo, das situações e das comunidades das pessoas. Apesar disso, a razão para aceitarmos nossa responsabilidade social não é primariamente dar ao evangelho uma visibilidade ou uma credibilidade que de outra forma ele não teria; a razão é uma compaixão simples e descomplicada. O amor não tem necessidade de se justificar. Ele simplesmente se expressa em serviço sempre que julgar necessário.

Missão, então, não é uma palavra para tudo que a igreja faz. Dizer que ´a igreja é missão´ soa bem, mas é um exagero. A igreja é uma comunidade de adoração assim como de serviço, e, apesar de a adoração e o serviço se complementarem, não devem ser confundidos. Tampouco, como já vimos, ´missão´ cobre tudo o que Deus faz no mundo. Pois Deus, o Criador, está constantemente ativo no mundo em providência, graça comum e julgamento, diferente dos propósitos para os quais ele enviou seu Filho, seu Espírito e sua Igreja ao mundo. ´Missão´ descreve tudo que a Igreja é enviada a fazer no mundo. ´Missão´ agrega a dupla vocação de serviço da Igreja: ser ´sal da terra´ e ´luz do mundo´. Pois Cristo envia seu povo à terra para ser sal, e envia seu povo ao mundo para ser luz (Mt. 5:13-16).”

“Jesus entregou-se a si mesmo em um serviço abnegado pelos outros e seu serviço teve uma ampla variedade de formas segundo as necessidades dos homens. Certamente ele pregou, proclamando as boas novas do reino de Deus e ensinando sobre a vinda e a natureza do reino, como entrar nele e como este reino seria espalhado. Porém, ele serviu por meio de obras, assim como por palavras, e seria impossível, no ministério de Jesus, separar suas obras de suas palavras. Ele alimentou bocas famintas, lavou pés sujos, curou os enfermos, confortou os abatidos e até ressuscitou os mortos.” (p. 28)

“A (…) diferença entre regeneração e conversão é que a primeira é um trabalho instantâneo e completo de Deus, ao passo que a virada de arrependimento e fé que chamamos ‘conversão’ é mais um processo que um evento […] o nascimento é uma obra completa. Uma vez nascidos, nunca estaremos mais nascidos do que no momento em que saímos do ventre. É o mesmo com o novo nascimento. Citando John Owen novamente, a regeneração ‘não é suscetível a graus, de tal forma que um seja mais regenerado que o outro… Os homens podem ser mais ou menos santos, mais ou menos santificados; mas não podem ser mais ou menos regenerados” (p. 138)

“‘A conversão cristã […] insere as pessoas na comunidade cristã […]. A conversão cristã reúne as pessoas em uma comunidade adoradora, a comunidade doutrinária e a comunidade de serviço para todos os homens.”

… um convertido a Jesus Cristo vive no mundo tanto quanto na igreja, e tem responsabilidades com o mundo tanto quanto com a igreja […]. A conversão não deve tirar o convertido do mundo. Em vez disso, deve enviá-lo de volta a ele, a mesma pessoa no mesmo mundo, e, ainda assim, uma nova pessoa com novas convicções e novos padrões. Se a primeira ordem de Jesus foi ‘venha’, sua segunda foi ‘vá’…” (p. 145)

“Usar o Espírito Santo para justificar nossa preguiça é mais blasfêmia do que piedade.” (p. 153)

STOTT, John. A missão cristã no mundo moderno. Ed. Ultimato, 2010.