Sal e luz em tempos de polarização

Assista o estudo realizado em nossa comunidade (Comunidade Batista de Santo André) no sábado (24/9) com o tema “Sal e luz em tempos de polarização: o testemunho cristão e o exercício de sua cidadania”. Uma conversa pastoral em ano eleitoral. Disponível também em áudio pelo Spotity e Apple Podcast da Comuna Batista (links disponíveis no site da igreja).

Sal e luz – o cristão em uma sociedade não cristã

“O cristão em uma sociedade não cristã”, um livro escrito em 1984, mas que tem muito a falar ainda a nossa e futuras gerações sobre o que é ser “sal e luz” em nossa sociedade. Esse clássico de John Stott precisa ser (re)descoberto e trazido à mesa para conversas pastorais e discipulado nos dias de hoje (acrescentaria na sequência ou antecedendo a essa leitura seu outro clássico escrito em 1992, “O cristão contemporâneo”, para completar o pensamento de Stott nesses temas). Compartilho algumas frases para encorajá-lo nessa leitura.

“O mundo é a arena em que devemos viver e amar, testemunhar e servir, sofrer e morrer por Cristo”.

STOTT, John. O cristão em uma sociedade não cristã. Thomas Nelson Brasil, 2019, p.43. 

“De um lado, a igreja é um povo “santo”, chamado para fora do mundo a fim de pertencer a Deus. De outro, é um povo “mundano”, no sentido de renunciar à sua cidadania “do outro mundo” e de ser enviado de volta ao mundo atual para testemunhar e servir.” (Ibid., p.54) 

´Mais importante do que os meros números de discípulos professos são a qualidade de seu discipulado (manter os padrões de Cristo sem compromisso) e o seu emprego estratégico (conquistar posições de influência para Cristo). Nosso hábito cristão é lamentar os padrões do mundo em deterioração com um ar de desespero um tanto farisaico. Criticamos sua violência, sua desonestidade, sua imoralidade, seu desrespeito à vida humana e sua ganância materialista. “O mundo está indo por água abaixo”, dizemos balançando a cabeça. Mas a culpa é de quem? Quem é o culpado? Deixe-me dizê-lo assim: Se a casa estiver escura quando a noite cai, não faz sentido culpar a casa; é o que acontece quando o sol se põe. A pergunta que precisamos fazer é: “Onde está a luz?” Semelhantemente, quando a carne estraga e se torna intragável, não faz sentido culpar a carne; é o que acontece quando permitimos que as bactérias se multipliquem. A pergunta que precisamos fazer é: “Onde está o sal?” Da mesma forma, se a sociedade se deteriora e seus padrões entram em declínio até que ela se transforme em noite escura ou peixe podre, não faz sentido culpar a sociedade; é o que acontece quando homens e mulheres caídos são entregues a si mesmos e o egoísmo humano não é controlado. A pergunta que precisamos fazer é: “Onde está a Igreja? Por que o sal e a luz de Jesus Cristo não estão permeando e mudando nossa sociedade?” É pura hipocrisia da nossa parte levantar as sobrancelhas e os ombros ou esfregar as mãos. O Senhor Jesus nos instruiu a sermos o sal e a luz do mundo. Se abundarem escuridão e podridão, em grande parte a culpa é nossa, e precisamos assumir a responsabilidade.” (Ibid., p.84-85)

“Quando o evangelho é pregado de forma fiel e ampla, ele não só leva uma renovação radical até os indivíduos, mas produz o que Raymond Johnston chamou de “uma atmosfera antisséptica”, em que blasfêmia, egoísmo, ganância, desonestidade, imoralidade, crueldade e injustiça não florescem com tanta facilidade. Um país permeado pelo evangelho não é um solo em que as ervas daninhas conseguem arraigar-se com facilidade, muito menos florescer.” (Ibid., p.88)

“Se é verdade que Deus costuma operar por meio dos insignificantes e pequenos para realizar seus propósitos, então não há desculpa para um cristão sentir-se alienado. Bem pelo contrário: devemos deleitar-nos com o fato de que ninguém é insignificante demais para ser usado por Deus a fim de mudar o mundo.” (Ibid., p.95)

“…num mundo caído, nenhum programa político pode reivindicar ser a expressão da vontade de Deus.” (Ibid., p. 33).

Levando Deus em conta

Continuo a leitura (sem pressa, sem leitura dinâmica, sem ter que cumprir meta, ô coisa boa) do livro “Lendo a Bíblia de modo sobrenatural” e sendo tremendamente abençoado, desafiado e inspirado a cada página que o pastor John Piper compartilha nesse 2º livro de sua trilogia (1º – Uma glória peculiar; e o 3º – Exultação expositiva). Compartilho aqui mais um pequeno trecho para te encorajar a se engajar nessa leitura também:

“O mundo pensa que, por sermos capazes de colocar o homem na lua, curar doenças, construir arranha-céus e estabelecer universidades, podemos entender as coisas sem referência a Deus. Entretanto, isto é um ponto de vista pateticamente restrito. É restrito porque supõe que o mundo material é enorme e Deus é pequeno. É restrito porque acha que ser capaz de fazer coisas com a matéria, enquanto permanece cego para Deus, é brilhante. Mas, na verdade, um momento de reflexão na atmosfera envolvente do teocentrismo bíblico nos lembra que, quando Deus é levado em conta, o universo material é ´uma parte infinitamente pequena da existência universal´.

Essas são palavras de Jonathan Edwards. Ser impressionado com o universo material e não ser impressionado com Deus é como ficar admirado com o monte Buck, em Minnesota, e entediado com as Montanhas Rochosas do Colorado. Se Deus vestisse um casaco com bolsos, ele levaria o universo em um dos bolsos, como um amendoim. Pensar no significado desse amendoim, sem referência à majestade de Deus, é a obra de um tolo.

Portanto, o retrato de Deus na Bíblia exige que sempre leiamos a Bíblia com o alvo de ver a glória de Deus. Quando Paulo disse que ´dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas´ (Rm. 11:36), não estava querendo dizer ´todas as coisas exceto as que estão na Bíblia´. Ele queria dizer realmente todas as coisas. E, em seguida, acrescentou: ´A ele, pois, a glória eternamente´. Isso significa: a glória de Deus é a origem, o fundamento e o alvo de todas as coisas. A glória de Deus é o alfa e o ômega de todas as coisas – e cada letra entre elas. E, portanto, a glória de Deus dá significado a todas as coisas. E não estaríamos blasfemando em dizer que este Deus glorioso é algo menos do que o significado supremo de todas as coisas?”

(PIPER, John. Lendo a Bíblia de modo sobrenatural: provando e vendo a glória de Deus nas Escrituras; Editora Fiel; pp.110-111)

Bicentenário da independência do Brasil. Dia de orar por nossa nação.

7 de setembro de 2022. Nesse dia especial em nossa terra, bicentenário da independência do Brasil, ore por nossa nação.

“17Peço ao Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, que conceda a vocês espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele. 18Peço que ele ilumine os olhos do coração de vocês, para que saibam qual é a esperança da vocação de vocês, qual é a riqueza da glória da sua herança nos santos 19e qual é a suprema grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder. 20Ele exerceu esse poder em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nas regiões celestiais, 21acima de todo principado, potestade, poder, domínio e de todo nome que se possa mencionar, não só no presente século, mas também no vindouro. 22E sujeitou todas as coisas debaixo dos pés de Cristo e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, 23a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas.” (Ef.1:17-23)

“16Peço a Deus que, segundo a riqueza da sua glória, conceda a vocês que sejam fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito, no íntimo de cada um. 17E assim, pela fé, que Cristo habite no coração de vocês, estando vocês enraizados e alicerçados em amor. 18Isto para que, com todos os santos, vocês possam compreender qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade 19e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que vocês fiquem cheios de toda a plenitude de Deus.

20Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, 21a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Ef. 3:16-21)

“‘se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, orar, me buscar e se converter dos seus maus caminhos, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra.” (2Crônicas 7:14)

O molde da glória divina

Meu parceiro de café nos últimos dias tem sido o livro “Lendo a Bíblia de modo sobrenatural”, escrito por John Piper.

Destaco apenas um trecho logo a seguir onde Piper argumenta sobre “o molde da glória divina” para encorajar você também à leitura desse livro e sobre o que é ler a Bíblia de modo sobrenatural.

“(…) Ter ´conhecimento de Deus´, em Romanos 1:21, inclui esta experiência de coração, mais profunda, referida em Romanos 2:15. A analogia que acho proveitosa é pensar no conhecimento inato de Deus e de sua vontade como um tipo de molde no coração humano. Este molde é criado por Deus em cada coração humano com uma forma que corresponde à glória de Deus. Em outras palavras, se a glória de Deus fosse vista com os olhos do coração, se encaixaria tão perfeitamente no molde que saberíamos que a glória é real. Saberíamos que fomos feitos para isto.

Portanto, quando Paulo diz que todos os humanos têm ´conhecimento de Deus´ ou que todos os humanos têm a norma da lei ´gravada no seu coração´, ele quer dizer que há um molde na forma de glória em cada coração esperando receber a glória de Deus. Todos temos ´conhecimento de Deus´ no sentido de que temos este testemunho em nosso coração, porque fomos feitos para esta glória. Há uma expectativa e aspiração latente, e a forma dela está inserida no profundo de nossa alma.

A razão por que não vemos a glória de Deus não é que o molde é defeituoso nem que a glória de Deus não está resplandecendo. A razão é ´dureza do coração´ (Ef. 4:18). Esta dureza é uma profunda aversão a Deus e um correspondente amor à autoexaltação. Paulo disse que a mentalidade da carne é inimizade contra Deus (Rm. 8:7). E Jesus disse que ´a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz´ (Jo. 3:19). Nosso problema não é que nos falta a luz, e sim que amamos as trevas. Esta é a dureza de nosso coração.

Assim, em minha analogia do molde, isto significa que o molde, o qual foi perfeitamente formado para a plena satisfação na glória de Deus, está abarrotado de amor por outras coisas. Por isso, quando a glória de Deus brilha no coração – a partir da criação, da encarnação de Jesus ou pelo evangelho – não acha lugar ali. Não é sentida nem percebida como apropriada. Para a mente natural – a mente cujo molde formado para a glória está lotado de ídolos – a glória de Deus é ´loucura´ (1 Co. 2:14). Não se encaixa ali. Como Jesus disse às pessoas de coração endurecido que desejavam matá-lo: ´Procurais matar-me, porque a minha palavra não está em vós´ (Jo. 8:37). É claro, elas podiam raciocinar e lembrar as palavras de Jesus. Mas não podiam vê-las como gloriosas e convincentemente belas. Ouviram as palavras, mas não as amaram. Estas pessoas amavam as trevas que enchiam o molde projetado para o resplendor da glória de Deus.”

PIPER, John. Lendo a Bíblia de modo sobrenatural: provando e vendo a glória de Deus nas Escrituras. Editora Fiel. pp.26-28.

Conversa espiritual

Acabo de ler o livro “Conversa espiritual”, baseado em uma entrevista realizada em 1992 do teólogo anglicano Philip Roderick com o teólogo católico Henri Nouwen (falecido em 1996). Nouwen escreveu mais de 40 livros sobre espiritualidade, entre eles os clássicos “A volta do filho pródigo” e “O caminho do coração”. A seguir um pequeno trecho dessa conversa para te encorajar na leitura.

“Ao ler Lucas, talvez você goste do momento em que Jesus escolhe os 12 apóstolos. O texto diz: ´À noite ele subiu à montanha para orar. Ao amanhecer ele desceu da montanha e chamou seus discípulos. À tarde ele saiu com eles, pregou a palavra de Deus e curou os enfermos.´ Assim, isso é comunhão com Deus, comunidade, ministério. Essa é a ordem das coisas – à noite orar, ao amanhecer formar uma comunidade e então com a comunidade, ministrar. Nós, no entanto, invertemos essa ordem; queremos fazer todo tipo de coisa e, se não funcionar, termos a ajuda de outras pessoas da comunidade e, se isso não funcionar começamos a orar. Essa, no entanto, não é a ordem do alto. Não é uma questão de estratégias, técnicas ou métodos. Deus nos ama, e de algum modo temos de estar bem confiantes. Às vezes conseguimos orar, e às vezes não. Às vezes há alguma solitude, às vezes não. Às vezes encontramos uma comunidade, às vezes não. Mas no meio disso, Deus está entre nós. Não que todos devam calar a boca e ter alguma solitude! A solitude e o silêncio significam coisas diferentes para pessoas diferentes em ocasiões diferentes. Eles não são respostas aos problemas do mundo num sentido formal, somente num sentido profundamente espiritual.”

(NOUWEN, Henri & RODERICK, Philip. Conversa espiritual, Ed. Palavra, Brasília, 2009, pp.70-71)

Ramos satisfeitos

Finalizei há alguns dias a releitura do livro de meu querido amigo pastor Carlos McCord, “A vida que satisfaz” (Alpha Conteúdos). Compartilhei no último post um texto desse livro e faço novamente aqui o destaque de mais um trecho para encorajá-lo a conhecer ou se aprofundar também nesse tema sobre a essência da vida cristã, baseado no texto do evangelho de João 15, as palavras de Jesus sobre permanecer na Videira.

“Uma comunidade cristã verdadeira tem mais a ver com o que é recebido de Deus do que com o quanto é recebido da comunidade. Esse conceito é o inverso da maneira pela qual fui ensinado como pastor para liderar uma igreja.

Fui ensinado que a base de medida da saúde da igreja era a atividade. Assim, o calendário da igreja que organizava muitas vezes existia para produzir satisfação suficiente para manter todos ocupados e acrescentar novos membros à igreja. Na superfície era algo nobre, mas logo abaixo estava o medo de que os insatisfeitos pudessem sair e procurar uma igreja ´melhor´ se não os agradássemos.

É difícil imaginar que ramos satisfeitos em uma maravilhosa vinha queiram pertencer a outra vinha por conta da insatisfação. Porém, no contexto da igreja moderna, não é difícil observar cristãos constantemente procurando pela melhor vinha da cidade. Esse movimento causado pela insatisfação revela algo bem diferente que o direcionamento divino a seus filhos satisfeitos para que participem de uma outra igreja. Revela uma necessidade de se alimentar de outros ramos em vez de alimentar-se da Videira.

É verdade que as pessoas serviam umas às outras com paixão nas igrejas em que tive o privilégio de liderar. Ainda assim, o que observei foram pessoas medindo constantemente a saúde da nossa igreja, como se a qualquer momento precisassem sair para salvar suas vidas cristãs. Às vezes, parecíamos mais clientes e consumidores do que ramos cheios de frutos. O que eu profundamente desejava era que as pessoas tomassem suas decisões a partir da sua satisfação e não da sua insatisfação.

Ao contrastar a minha realidade de liderança com os ensinamentos de Jesus sobre a vida na vinha, percebi imediatamente que estávamos tentando ser uma fonte de satisfação para as pessoas, ao invés de levá-las à Videira para que ela fosse a sua fonte.

Lembro-me de estar sentado em meu escritório e imaginar uma pessoa entrando pela porta da nossa igreja e perguntar: ´Se eu viesse para cá, o que vocês fariam comigo?´ Imediatamente, pensei no ´primeiro descanso´ da salvação e como poderíamos ajudá-lo a entrar nesse descanso por meio do evangelho de Cristo. ´Se você vier, falaremos a você a respeito da perfeita vida de Jesus que lhe foi dada há dois mil anos no Calvário. Contaríamos como Jesus ressuscitou da morte e como você pode ter certeza de que seus pecados estão perdoados para sempre.´

Então imaginei a mesma pessoa dizendo: ´E depois disso, o que você pretende em relação a mim?´ O ´velho eu´ teria começado uma lista de atividades e mobilização para o serviço. Mas aquele dia foi diferente. Imaginei-me dizendo a essa querida pessoa: ´Quero ensinar-lhe a entrar no ´segundo descanso´. Quero ajudá-lo a desfrutar da viva presença de Jesus na sua vida até que você fique tão satisfeito em Deus que chegue ao ponto de dar frutos da glória Dele aqui entre nós e também no mundo. Quero que descubra a satisfação divina vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Quero ajudá-lo a ser um ramo´. Ao ter esses pensamentos naquele dia, eu chorei. E choro até hoje.”

(McCORD, CarlosA vida que satisfaz. Alpha Conteúdos; pp.111-113)

A Vinha

Estou relendo nesses últimos dias o delicioso e profundo livro de meu querido amigo pastor Carlos McCord, “A vida que satisfaz” (Alpha Conteúdos). Trata sobre a essência do discipulado, baseado no texto do evangelho de João 15, as palavras de Jesus sobre permanecer na Videira na vinha do Pai. O ramo que permanece na Videira, esse dá o fruto divino da Videira. O ramo não produz, ele recebe e compartilha.

Logo na introdução ele explica que as “palavras aqui apontam para dois lugares – o Calvário e a Videira – e para uma Pessoa. Esses dois locais muito reais revelam duas perfeições de Jesus por nós e em nós. Quem vier a estes lugares não terá falta de nada em sua jornada.” (p.19). Essa frase já vale a aquisição e leitura do livro, mas compartilho a seguir mais um trecho onde ele fala sobre “a Vinha”, para te encorajar a descobrir essa obra.

“Na Videira, nenhum ramo precisa de outro para viver, mas nenhum deles pode ser sozinho a vinha que o Agricultor precisa e deseja. A alegria que um único ramo traz não se compara a alegria que uma vinha inteira pode produzir quando suas satisfações são compartilhadas.

A mesma coisa acontece na comunidade de Jesus chamada igreja. Devemos ser a comunidade unida em Jesus que escolheu não viver sem o outro. Para que isso aconteça dia a dia, precisamos permanecer no amor que Deus tem para nós em Jesus, que nos satisfaz totalmente. Um amor que diz: ´Escolho não viver sem você. Vou permanecer com você eternamente com um coração aberto.´ Esse amor eterno é a vida eterna que nos é dada em Jesus.

Lembro de dizer às minhas filhas que só estariam prontas para se casar quando não precisassem de marido para serem felizes. Talvez inconscientemente, achava que isso adiaria as coisas por um tempo. Mas depois de anos e anos de aconselhamento matrimonial, convenci-me de que a busca do casamento para a felicidade estava matando os casamentos. A necessidade pessoal de felicidade que as pessoas traziam para o casamento colocava muita pressão no relacionamento. Já vira esse filme o suficiente.

Antes que escolhessem um homem para amar por toda uma vida, queria ver minhas filhas felizes o suficiente para que não precisassem de um homem. Queria ouvi-las dizer: ´Não preciso me casar para ser feliz, mas escolho, em minha felicidade em Jesus, casar-me.´ Graças a Deus, elas se casaram felizes ao invés de se casaram para serem felizes.

Somente ramos que permanecem em Jesus são capazes de amar a partir da satisfação e não para ter satisfação. Os ramos conseguem amar porque permanecem no amor. A igreja é a comunidade de Jesus que pode sustentar seu amor, com uns amando aos outros e ao mundo. Como é triste quando isso não acontece. É triste para a igreja, para o mundo e para a glória de Deus.”

(McCORD, Carlos. A vida que satisfaz. Alpha Conteúdos; pp.110-111)

Iceberg

Peter Scazerro é pastor fundador da New Life Fellowship, em Queens, New York, um dos melhores autores a tratar do tema de discipulado, espiritualidade e liderança emocionalmente saudável; autor de 3 livros já traduzidos para o português (Uma igreja emocionalmente saudável; Espiritualidade emocionalmente saudável; e O líder emocionalmente saudável) e um mais recente publicado ano passado (Emotionally Healthy Discipleship).

Acabo de retornar de um período de encontros com um pequeno grupo de líderes cristãos trabalhando o tema sobre o que é uma liderança autêntica que segue verdadeiramente Jesus. Em algum momento, um dos participantes compartilhou um famoso texto de C. S. Lewis que Scazzero também cita em seu livro “Uma Igreja Emocionalmente Saudável”. Reproduzo a seguir um pequeno trecho para encorajá-lo:

“Os seres humanos, assim como os icebergs, têm muitas camadas abaixo da superfície.

(…) cerca de apenas 10% de um iceberg é visível na superfície. Essa é a parte da nossa vida de que temos consciência. Lembre-se, contudo, de que o Titanic afundou porque colidiu com uma parte dos 90% submersos de um iceberg. A maioria dos líderes naufraga ou vive de forma incoerente por causa de forças e motivações que estão abaixo da superfície da vida que eles nem mesmo cogitam.

Salomão disse com sabedoria: ´Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida´(Provérbios 4:23). Confiar na graça e no amor de Deus para poder olhar para dentro com profundidade pode ser assustador.

(…) Jesus disse que a verdade nos libertará (João 8:32). A honestidade exige que olhemos para toda a verdade, e eu a chamo de ´descoberta´ porque, assim como Adão e Eva, nós preferimos nos esconder da verdade e proteger a nós mesmos do que nos apresentarmos descobertos, nus, diante de Deus. Desde o começo dos tempos, esse tem sido um problema do pecado (Gênesis 3:1-19). É ´doloroso´ porque, embora a verdade acabe por nos libertar e nos aproximar de Deus, a princípio é algo que preferimos evitar.

Uma das batalhas de As crônicas de Nárnia, A viagem do peregrino da alvorada, de C. S. Lewis, retrata como é seguir Deus e olhar profunda e seriamente para o interior. Eustáquio, um menino, transforma-se em um dragão grande e feio em consequência do seu egoísmo, da sua teimosia e da sua incredulidade. Ele quer mudar e voltar a ser um menino, mas não consegue fazer isso. Por fim, o grande leão Aslan (representando Jesus) aparece para ele e o guia a uma bela nascente para se banhar. Mas, como ele é um dragão, não pode entrar na nascente.

Aslan diz a ele para se despir. Eustáquio se lembra de que pode tirar a pele como uma cobra. Ele tira uma pele sozinho, joga no chão e sente-se melhor. Então, quando vai em direção à fonte, percebe que ainda há mais uma camada dura, áspera e escamosa sobre ele. Frustrado, sentindo dor e ansiando entrar naquele belo banho, ele pergunta a si mesmo: `Quantas peles preciso despir?´.

Depois de três camadas, ele desiste, percebendo que não consegue. Aslan diz: ´Deixe que eu tire a sua pele´. Ao que Eustáquio diz:

´Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E, quando começou a tirar-me a pele, senti a pior dor da minha vida. […] Nessa altura agarrou-me […] e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor do braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente. […] Depois de certo tempo, o leão me tirou da água […] e com suas patas vestiu-me com uma roupa nova, esta aqui.´

C. S. Lewis descreve muito bem: Ao seguirmos nessa direção radicalmente nova, é como se as garras de Deus nos penetrassem tão profundamente que cortam até o próprio coração.

Deus muitas vezes usa a dor para nos fazer mudar. A minha experiência como pastor, trabalhando com pessoas por mais de vinte e dois anos, convenceu-me de que, a menos que haja desconforto e angústia suficientes, a maioria de nós não se entrega ao trabalho duro de olhar para o interior com seriedade e profundidade. E parece que isso se aplica especialmente aos homens e às mulheres de meia-idade. Como se diz acertadamente: ´Mudamos o nosso comportamento quando a dor de permanecer igual passa a ser maior do que a dor da mudança´.”

(SCAZZERO, Peter. Igreja emocionalmente saudável. Editora Vida, 2014, p.97-100)

Evangelização e a soberania de Deus

Há algumas semanas estamos estudando a carta de Paulo aos Efésios em nossa comunidade (mensagens estão disponíveis no canal de YouTube ou Spotify, link em nosso site: http://www.comunabatista.com).

Paulo trata de temas importantes e profundos logo no início dessa pequena carta – termos sidos eleitos, escolhidos, predestinados, adotados, bençãos espirituais, propósito, para louvor de sua glória e outros.

Indiquei para quem deseja aprender mais sobre esses temas, o livro “Evangelização e a soberania de Deus: se Deus é soberano na salvação, por que evangelizar?” (1961), escrito pelo teólogo britânico J. I. Packer (1926-2020), anglicano evangélico, foi professor de teologia histórica e sistemática no Regent College (Vancouver, Canadá), autor também do clássico “O conhecimento de Deus” (ECC).

Esse livro é fruto de uma palestra ministrada em 1959 em uma conferência da Inter-Faculty Christian Union, em Londres. Destaco a seguir alguns trechos para encorajá-lo na leitura desse pequeno-grande livro, uma leitura essencial nesse tema.

“A oração do cristão não é uma tentativa de forçar a mão de Deus, mas um humilde reconhecimento da nossa impotência e dependência. Quando nos colocamos de joelhos, é porque sabemos muito bem que não somos nós que controlamos o mundo; não temos, portanto, o poder de satisfazer as nossas necessidades pela nossa própria força; tudo de bom que desejamos para nós mesmos e para os outros deve ser solicitado das mãos de Deus, quando o obtemos, se é que o obtemos, será como um presente das mãos dele .Se isso é verdade no que se refere ao nosso pão diário (e a oração do Senhor nos ensina que é), é muito mais verdade no que diz respeito aos bens espirituais. (…) o que fazemos toda vez que oramos é confessar a soberania de Deus e a nossa impotência. O próprio fato de o cristão orar é prova de que ele crê, sim, na soberania de Deus.” (p.11-12)

“(…) seria bastante esclarecedor refletir sobre o testemunho de Charles Simeon acerca da sua conversão, por meio de João Wesley, em 20 de dezembro de 1784 (a data encontra-se registrada no Wesley´s Journal): ´Meu caro, eu entendo que você é o que chamam de arminiano; e certas pessoas me chamam de calvinista; e por isso mesmo, suponho que as pessoas esperam ver-nos prontos para brigar um com o outro. Mas, antes de eu consentir em que se dê início ao combate, com sua licença, gostaria de lhe fazer algumas perguntas (…) Diga-me, por favor: você sente que é uma criatura tão depravada, mas tão depravada que nunca teria pensado em voltar para Deus, se Deus já não tivesse posto isso em seu coração antes?´ ´É verdade – diz o veterano – é isso mesmo.´ ´E você também se sentiria totalmente perdido se tivesse que recomendar-se a Deus, baseado em alguma coisa que você pudesse fazer, e considera a salvação como algo que se deu exclusivamente pelo sangue e justiça de Cristo?´ ´Sim, exclusivamente por Cristo.´ ´Mas então, meu caro, partindo do pressuposto de que você foi inicialmente salvo por Cristo, será que ainda assim você não teria, de uma maneira ou de outra, que salvar a si mesmo por suas próprias obras?´ ´É claro que não, pois eu devo ser salvo por Cristo do princípio ao fim.´ ´Admitindo, então, que foi inicialmente convertido pela graça de Deus, você, de um modo ou de outro, deve manter-se salvo por seu próprio poder?´ ´Não.´ ´Quer dizer, então, que você deve ser sustentado a cada hora e momento por Deus, tal como uma criança nos braços de sua mãe?´ ´Sim, absolutamente.´ ´E quer dizer que toda a sua esperança está depositada na graça e na misericórdia de Deus para sustentá-lo, até que venha o seu reino celestial?´ ´Certamente, eu estaria completamente desesperado se não fosse ele.´ ´Então, meu caro, com sua permissão vou levantar novamente a minha espada, pois isso não é nada mais nada menos do que o meu Calvinismo; são as minhas teses da eleição, justificação pela fé, da perseverança final, em essência, tudo o que eu defendo, e como o defendo; portanto, se lhe parecer bem, em vez de ficar tentando descobrir termos ou expressões que sejam motivo de briga entre nós, unamo-nos cordialmente naquelas coisas em que concordamos.´” (p.13-14)

“Quando você ora pelas pessoas não convertidas, você o faz pressupondo que é no poder de Deus que elas são conduzidas à fé. Você roga para que ele faça exatamente isso, e sua confiança em pedir repousa sobre a certeza de que ele é capaz de fazer o que você pede. E, de fato, ele é: a convicção que motiva suas intercessões é a verdade do próprio Deus, escrita em seu coração pelo Espírito Santo. Na oração, portanto (e quando o cristão ora está em seu estado mais são e sábio), você sabe que é Deus quem salva os homens; você sabe que o que faz os homens se voltarem a Deus é a própria obra graciosa dele de atraí-los para junto de si; e o conteúdo de suas orações é determinado por esse conhecimento. Assim, você reconhece e confessa a soberania da graça de Deus mediante sua prática de intercessão e, da mesma maneira, pela ação de graças por sua própria conversão. Assim procedem todos os cristãos, em toda parte.” (p.14-15)

“Enquanto estivermos sobre nossos próprios pés, podemos levantar vários argumentos em torno da questão, mas quando de joelhos, estamos todos de acordo.” (p.16)

(PACKER, J. I. Evangelização e a soberania de Deus; Editora Cultura Cristã)