Pregando em 09 de dezembro de 1955 no texto de Romanos 1:3-5, o reverendo Martyn Lloyd-Jones afirmou:
“É provável que vocês tenham ouvido muitas vezes pessoas dizerem: você pode aceitar Cristo como o seu Salvador, mas talvez não o receba como o seu Senhor durante anos, ou não creia nele como o seu Senhor durante anos. Por muito tempo, dizem tais pessoas, você poderá ser um cristão; sim, você crê nele como o seu Salvador; mas, então, após todos estes anos de lutas e tudo mais, afinal você se rende a ele e o aceita como o seu Senhor. Em meu entendimento, esse ensino não é somente errado, é impossível. Não é possível dividir a pessoa; esta mesma Pessoa, esta Pessoa una e única, é sempre Jesus Cristo, o nosso Senhor. Não se pode dizer que ele é somente Jesus, ou somente Cristo, ou somente Senhor. Não, não! A Pessoa una e única é o Senhor Jesus Cristo, ou Jesus Cristo, o Senhor. Pois bem, o apóstolo mesmo, naturalmente, escrevendo aos colossenses, expressa isso de maneira bem específica. Aí está uma passagem raramente ouvida e lamentavelmente esquecida: ´Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele´ (Cl.2:6). Não há nas Escrituras nenhum lugar em que vocês vejam que podem aceitá-lo ou recebê-lo como Jesus somente, ou como Salvador somente, ou como Cristo somente. Não! A Pessoa é una e indivisível. E se você pensa que crê no Senhor Jesus Cristo sem se dar conta de que ele é o seu Senhor, eu não hesito em dizer que a sua crença é vã. Você não pode tomá-lo somente como Salvador, porque ele o salva adquirindo-o ao preço do seu precioso sangue. E se você crê nisso, deve saber de imediato que ele é o seu Senhor.”
Um verdade a ser lembrada e vivida nos dias de hoje.
(LLOYD-JONES, D. M.; Romanos: O Evangelho de Deus, Vol.1, PES; p.147)
Hoje (segunda-feira 19 de junho) marca a data de nascimento de Charles H. Spurgeon. Considerado “o príncipe dos pregadores”, pastor batista britânico, pastoreou a igreja Metropolitan Tabernacle em Londres por quase quarenta anos, fundou o Spurgeon´s College em 1856, pregou mais de 3.000 sermões durante sua vida ministerial. Há uma edição especial de 10 volumes (publicados em um box de 5 livros) com maior parte de seus sermões publicados em inglês pela Hendrickson Publisher. Muitos de seus livros estão disponíveis em lingua portuguesa publicado por diversas editoras.
Nas palavras do pastor Steven Lawson, na apresentação de sua biografia “O foco evangélico de Charles Spurgeon” (Editora Fiel): “A voz de Spurgeon trovejou com a verdade por toda a Inglaterra e além de lá, em uma época que a igreja tinha grande necessidade de pregação do evangelho calorosa, franca, sem impedimentos ou barreiras – e isso de uma linha calvinista. À medida que o Senhor lhe dava poder, o seu púlpito se tornou um dos mais profícuos que o Reino de Deus conheceu em todos os tempos.”
Há um documentário sobre sua vida muito bem editado disponível gratuitamente no YouTube (legendado em português), produzido pelo pastor Jeremy Walker (Maidenbower Baptist Church, Crawley, Inglaterra). Uma boa oportunidade para conhecer (ou descobrir) e ser encorajado pela vida desse querido pastor que abençoou não apenas a sua geração, mas deixou um legado até nossos dias.
Estou relendo o livro “O pastor contemplativo”, escrito por Eugene Peterson e publicado pela primeira vez em 1989. Nesse livro, Peterson faz um alerta sobre a necessidade de redefinirmos o termo pastor em uma sociedade que valoriza agendas repletas e estresse como evidências de importância. Compartilho um pequeno texto desse livro para, quem sabe, despertar seu interesse nessa leitura.
“No livro Moby Dick, de Herman Melville, há um episódio turbulento em que um baleeiro enfrenta o vento forte no oceano revolto, perseguindo a grande baleia branca, Moby Dick. Os marinheiros trabalham arduamente, com cada músculo tenso e toda a atenção e energia concentradas na difícil tarefa. O conflito cósmico entre o bem e o mal se faz presente: o mar caótico e o monstro marinho demoníaco contra o homem moralmente ultrajado, o Capitão Acabe. Na embarcação, porém, há alguém que não participa da agitação do momento. Não tem um remo nas mãos, não transpira, não grita. Mostra-se impassível em meio ao ruído e às imprecações. Esse homem é o arpoador, calado e firme, à espera. Lê-se então a seguinte sentença: ´A fim de assegurar uma maior eficiência no arremesso, os arpoadores deste mundo devem se posicionar em meio à inatividade e não em meio à labuta´.
A sentença de Melville é um texto a ser colocado junto ao do salmista: ´Parem de lutar! Saibam que eu sou Deus´(Sl. 46:10); e da mensagem de Isaías: ´No arrependimento e no descanso está a salvação de vocês, na quietude e na confiança está o seu vigor´ (Is. 30:15).
Os pastores sabem que há algo radicalmente errado com o mundo. Estamos igualmente engajados em fazer alguma coisa a respeito. O estímulo da consciência, a lembrança de antigas ofensas e o desafio do mandamento bíblico nos envolvem no mar anárquico do mundo. A baleia branca, símbolo do mal, e o capitão aleijado, personificação da justiça violada, se encontram na batalha. A ficção representa um conflito espiritual. Em um mundo assim, o ruído é inevitável e uma energia imensa é despendida. Se, porém, não houver arpoador no barco, a caça não terá um final feliz. Se o arpoador estiver exausto, se tiver abandonado sua tarefa e trabalhado como remador, não estará pronto e não fará boa mira quando tiver de arremessar o arpão.
De certa forma, sempre parece haver mais incentivo para assumirmos o trabalho do remador, labutando arduamente em prol de uma causa moral, gastando nossa energia numa luta que, sabemos, terá consequências perenes. Sempre parece também mais dramático assumir a atitude ultrajada de um Capitão Acabe, obcecado com a ideia de vingança e retaliação, remoendo silenciosamente a lembrança do dano antigo afligido pelo inimigo. Há, no entanto, outros trabalhos importantes a serem feitos. Alguém deve atirar o dardo. Devem existir os arpoadores.
As metáforas usadas por Jesus para descrever o ministério são frequentemente imagens de coisas simples, pequenas e tranquilas, mas que produzem efeitos bem maiores do que sua aparência: sal, fermento, semente. Nossa cultura enfatiza o contrário: o que é grande, numeroso, ruidoso. Torna-se então necessário que os pastores se aliem deliberadamente aos arpoadores silenciosos, preparados, e não se atirem frenéticos aos remos. É muito mais urgente adquirirmos as habilidades do arpoador do que os músculos do remador. É muito mais bíblico aprendermos a quietude e a atenção diante de Deus do que sermos vencidos pelo que John Oman afirmou ser os perigos gêmeos do ministério: ´afobação e preocupação´. A afobação dissipa a energia e a preocupação a emperra.”
(Eugene Peterson, in: “O pastor contemplativo: descobrindo significado em meio ao ativismo”, Editora Mundo Cristão, p.32-33)