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Sobre André Paes

Pastor da Comunidade Batista de Santo André.

Uma longa obediência na mesma direção (E. Peterson)

Estou relendo o clássico “Uma longa obediência na mesma direção: discipulado numa sociedade instantânea)”, de Eugene Peterson (1932-2018), publicado em 1980, tendo sua primeira edição em português em 2005 (hoje publicado pela Editora Cultura Cristã).

Eugene Peterson é considerado por muitos como um pastor de pastores, é um dos meus autores permanentes em minhas leituras e sempre que possível retorno a seus textos.

Cada capítulo desse livro faz uma reflexão sobre os “Cânticos de Subida” (Salmos 120 a 134), quinze salmos que possivelmente eram cantados durante a peregrinação dos hebreus quando subiam até Jerusalém três vezes por ano para as grandes festas de culto religioso citadas em Êxodo 23:14-17 e 34:22-24 (Festa dos Pães sem Fermento/Festa da Páscoa no começo do verão; Festa das Semanas/ou Pentecostes no outono; e Festa das Tendas/ou Tabernáculos no fim do ano).

Algumas citações para encorajar você nessa deliciosa e rica leitura:

“Este mundo não é amigo da graça. Uma pessoa que assume um compromisso com Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador não encontra uma multidão se formando imediatamente para aplaudir a decisão, nem amigos antigos se reunindo espontaneamente à sua volta para dar os parabéns e aconselhamento. Comumente nada é diretamente hostil, mas há um acúmulo de desaprovação e indiferença agnóstica que constitui, assim mesmo, uma oposição espantosamente pavorosa.” (p.11).

“Uma pessoa precisa estar totalmente aborrecida com o modo em que estão as coisas para encontrar a motivação para partir no caminho cristão. (…) O indivíduo tem que estar farto com os modos do mundo antes que ele ou ela adquira um apetite pelo mundo da graça.” (p.19).

“[Salva-me das mentiras dos anunciantes que afirmam saber o que eu preciso e o que desejo, das mentiras dos que oferecem entretenimento, que prometem um caminho barato para a alegria, das mentiras dos políticos que fingem instruir-me sobre o poder e a moralidade, das mentiras dos psicólogos que oferecem moldar meu comportamento e meus princípios morais para que eu viva uma vida longa, com felicidade e sucesso, das mentiras dos beatos que “curam superficialmente as feridas deste povo”, das mentiras dos moralistas que fingem promover-me à posição de capitão do meu destino, das mentiras dos pastores que “se livram do mandamento de Deus para você não ser incomodado ao seguir as modas religiosas!” (Mc. 7:8). Salva-me da pessoa que me conta sobre a vida e omite Cristo, que é sábia quanto aos caminhos do mundo e ignora o mover do Espírito.” (p.20).

“John Baillie escreveu: “Estou certo que o trecho da estrada que mais precisa ser iluminado é o ponto em que ela se bifurca”. O Deus do salmista é um relampejar de raio que ilumina justamente esse tipo de bifurcação. O Salmo 120 é a decisão de escolher um caminho em oposição a outro. É o ponto crucial que marca a transição de uma nostalgia sonhadora para uma vida melhor a uma peregrinação dura de discipulado em fé, a mudança de reclamar sobre como as coisas estão más e ir atrás de todas as coisas boas.” (p.21).

“Arrependimento é a mais prática de todas as palavras e o mais prático de todos os atos. É um tipo de palavra concreta. Põe a pessoa em contato com a realidade que Deus cria. (…)O tolo olha para o relâmpago, o sábio para a estrada que ali está – iluminada – à sua frente.” (p.22).

“Arrependimento, a primeira palavra na imigração cristã, nos coloca no caminho para a viagem na luz. É uma rejeição que também é uma aceitação, uma partida que se desenvolve numa chegada, um não ao mundo que é um sim para Deus.” (p.24).

“Para muitos, a primeira grande surpresa da vida cristã é na forma das dificuldades que enfrentamos. Parece que não é bem o que tínhamos previsto; esperávamos algo bem diferente; tínhamos a mente colocada no Éden ou na Nova Jerusalém. Despertados rudemente, olhamos em redor buscando socorro, buscando no horizonte alguém que nos auxilie: “Elevo os meus olhos para os montes; será que minha força vem dos montes?”. (p.28).

“A promessa do salmo – e tanto os hebreus como os cristãos sempre o leram assim – não é que nunca iremos dar uma topada com os dedos do pé, mas que nenhum ferimento, nenhuma doença, nenhum acidente, nenhuma ansiedade terá poder maléfico sobre nós, isto é, poderá separar-nos dos propósitos de Deus para nós.

Nenhuma literatura é mais realista e honesta em enfrentar os duros fatos da vida do que a Bíblia. Em nenhum momento há a menor sugestão que a vida de fé nos isente de dificuldades. O que a Palavra promete é a preservação de todo o mal no meio delas. Em cada página da Bíblia há o reconhecimento de que a fé depara com problemas. O sexto pedido da Oração do Senhor é “Não nos deixe cair em tentação, mas livre-nos do mal”. Essa oração é respondida todos os dias, às vezes várias vezes por dia, na vida daqueles que percorrem o caminho da fé. São Paulo escreveu: “Nenhuma provação ou tentação que apareça no seu caminho será mais forte do que as que outros já tiveram de enfrentar. Tudo de que você precisa lembrar é que Deus nunca o desapontará; ele nunca deixará que seja pressionado além de seu limite; ele sempre estará lá para ajudá-lo a passar por ela” (1 Co. 10:13).” (p.30).

“Nenhuma das coisas que lhe acontecem, nenhuma das dificuldades que você encontra tem algum poder para se colocar entre você e Deus, diluir a graça dele em você, distrair a vontade dele de você” (ver Romanos 8:28, 31, 32).” (p.31).

“…o Salmo 121 diz que a mesma fé que funciona nas grandes coisas funciona nas pequenas coisas. O Deus de Gênesis 1 que das trevas tirou a luz é também o Deus do dia de hoje que o guarda de todo o mal.” (p.31)

“A vida cristã não é um retiro solitário num jardim onde podemos caminhar e conversar com o nosso Senhor sem interrupções, não é uma viagem fantástica a uma cidade celestial onde podemos comparar nossas taças e medalhas de ouro com as de outras pessoas da roda de campeões. Supor isso, ou esperar isso, é virar a porca no sentido contrário. A vida cristã é ir até Deus. Ao ir a Deus os cristãos percorrem o mesmo terreno que todos os outros percorrem, respiram o mesmo ar, bebem da mesma água, fazem compras nas mesmas lojas, lêem os mesmos jornais, são cidadãos sob o mesmo governo, pagam os mesmos preços para alimentos e gasolina, temem os mesmos perigos, estão sujeitos às mesmas pressões, sofrem as mesmas aflições, são enterrados no mesmo chão.

A diferença é que a cada passo que caminhamos, a cada fôlego que tomamos, sabemos que somos preservados por Deus, sabemos que somos acompanhados por Deus, sabemos que somos governados por Deus; portanto, sejam quais forem as dúvidas que suportamos ou os acidentes por que passamos, o Senhor nos guardará de todo mal, ele guardará a nossa própria vida. (…)A fé não é uma questão incerta de escapar por acaso dos ataques satânicos. É a experiência sólida, maciça, segura de Deus, que impede todo mal de penetrar dentro de nós, que guarda nossa vida, que guarda-nos quando saímos e quando retornamos, que nos guarda agora, que nos guarda sempre.” (p.32).

Feliz e abençoado 2023

Pela graça de Deus estamos chegando ao término de mais um ano e iniciando um novo ciclo. Compartilho alguns versículos para despertar seu coração para uma nova etapa:

“Todos os dias te bendirei e louvarei o teu nome para todo o sempre” – Salmo 145.2

“Entregue o seu caminho ao Senhor, confie nele, e o mais ele fará.” – Salmo 37:5 (NAA)

“Seja forte e corajoso! Não tenha medo, nem fique assustado, porque o Senhor, seu Deus, estará com você por onde quer que você andar.” – Josué 1:9 (NAA)

Que Deus possa renovar suas forças para um abençoado ano novo!

Soli Deo Gloria.

Beginning and start of the new year 2023. Preparation for happy new year ,new life, new business, plan, goals, strategy concept. Hand flips wooden cubes with 2022 to 2023 on smart background.

Morte na cidade (Francis Schaeffer)

Acabo de reler, depois de muitos anos, o clássico cristão “Morte na cidade” (Editora Cultura Cristã) escrito pelo pastor e teólogo americano Francis Schaeffer (1912-1984); Publicado pela primeira vez em 1969, como esse pequeno livro fala ainda hoje.

Schaeffer foi uma das grandes mentes cristãs do século XX, fundador do L’Abri na Suíça (tive a alegria em viisitar em 98 durante meus anos de seminário); autor cristão a ser lido e relido em nossos dias. A seguir compartilho um pequeno trecho do início desse profundo livro:

“(…) A igreja em nossa geração precisa de reforma, reavivamento e revolução construtiva.

Às vezes os homens pensam nas duas palavras – reforma e reavivamento – como se estivessem em contraste uma com a outra, mas isto é um erro. Ambas as palavras são relacionadas à palavra restaurar.

Reforma refere-se a uma restauração à doutrina pura; reavivamento refere-se a uma restauração na vida do cristão. Reforma fala de um retorno aos ensinos da Bíblia; reavivamento fala de uma vida levada à sua relação apropriada com o Espírito Santo.

Os grandes momentos da História da igreja vieram quando estas duas restaurações entraram simultaneamente em ação, de forma que a igreja voltou à doutrina pura e a vida dos cristãos na igreja conheceu o poder do Espírito Santo. Não pode haver reavivamento verdadeiro a menos que tenha havido reforma; e a reforma não é completa sem avivamento.

Tal combinação de reforma e reavivamento seria revolucionário em nossos dias – revolucionária em nossa vida individual como cristãos, revolucionária não somente na igreja liberal, mas também construtivamente revolucionária na igreja evangélica ortodoxa.

Que possamos ser aqueles que conhecem a realidade da reforma e do reavivamento, de forma que este mundo pobre e sombrio possa ter uma mostra de uma porção da igreja devolvida tanto à doutrina pura quanto à vida cheia do Espírito.”

(SCHAEFFER, Francis A.; Morte na cidade: a mensagem à cultura e à igreja que deram as costas a Deus; Editora Cultura Cristã; pp.8-9)

A igreja e a Trindade

Citando aqui mais uma pequena reflexão de John Stott (1921-2011) em seu livro O Chamado Para Líderes Cristãos (Editora Cultura Cristã, 2018), ao falar sobre uma compreensão bíblica e saudável da igreja, a partir do texto de 1 Coríntios 3. Stott lembra que o apóstolo Paulo “desenvolve três imagens ou metáforas da igreja, cada uma possuindo importantes aplicações:

  • A primeira é uma metáfora agrícola: “lavoura de Deus… sois vós” (9b).
  • A segunda é uma metáfora arquitetônica: ” edifício de Deus sois vós” (9c).
  • A terceira é uma metáfora eclesiástica: ” sois santuário de Deus” (16).

(…) Devemos nos lembrar sempre que a igreja é o santuário de Deus. Ela pode (segundo a nossa perspectiva) ser formada por pessoas sem instrução, pecadoras e sem atrativos. A congregação pode ser pequena e (como a igreja de Corinto) ser imatura e facciosa. Contudo, ela é a igreja de Deus (1:2), o local em que seu Espírito habita, e precisa ser tratada como tal.

(…) notamos o perfil tríplice e, de fato, trinitário, que Paulo confere à igreja, o que minimiza o papel dos seres humanos, especialmente dos líderes. O que mais importa sobre a igreja, Paulo insiste, é que como lavoura de Deus, ele mesmo provoca o seu crescimento; como edifício de Deus, Jesus Cristo é o seu único fundamento, e como santuário de Deus é o local em que o Espírito Santo habita. Essa é a visão abrangente do apóstolo em relação à igreja. Ela deve sua existência e seu crescimento a Deus Pai. É construída sobre o fundamento do Deus Filho. É habitada pelo Deus Espírito Santo. É uma comunidade única e trinitária. Não há no mundo nenhuma outra comunidade que, ainda que remotamente, se assemelhe à igreja.”

(STOTT, JohnO chamado para líderes cristãos, ECC, 2ª ed., 2018, pp.62, 68)

O Espírito Santo e as Sagradas Escrituras

Em seu livro O Chamado Para Líderes Cristãos (Editora Cultura Cristã, 2018), John Stott no terceiro capítulo faz um reflexão no texto do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 2:6-16 onde destaca a grande ênfase sobre a pessoa e o ministério do Espírito Santo e no seu papel de ensinar. Separo aqui um pequeno trecho para encorajá-lo na leitura desse pequeno grande livro:

“Consideramos o papel de ensino do Espírito Santo em quatro estágios – busca, revelação, inspiração e instrução. Primeiro, ele perscruta as profundezas de Deus e conhece os pensamentos de Deus e é, portanto, qualificado de forma única para o seu papel de ensino. Segundo, ele revelou as suas descobertas aos apóstolos e a outros autores bíblicos. Terceiro, ele comunicou essas coisas a outros, por intermédio dos autores bíblicos e o fez por meio de palavras escolhidas por ele. Quarto, ele instruiu a mente dos leitores bíblicos, para que possam discernir o que ele revelou para os autores bíblicos e por intermédio deles. E continua esse trabalho de instrução nos dias de hoje.

Assim, precisamos nos humilhar, tanto diante da Palavra como do Espírito. Nós ainda temos que estudar a Palavra, ponderar sobre seu significado e aplicação, mas também precisamos clamar ao Espírito por instrução. A oração humilde e o estudo diligente precisam estar combinados. Um mensageiro celestial disse a Daniel: ´Desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras…´ (Dn. 10:12). Do mesmo modo, Paulo escreveu a Timóteo: ´Pondera o que acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão em todas as coisas´ (2 Tm. 2:7). Nós ponderamos; ele nos instrui. Pois a Palavra permanece letra morta até que o Espírito lhe dê vida.

Relógio de Sol em Natal, RN (Brasil).

Charles Simeon, de Cambridge, usou um relógio de sol como analogia para ilustrar esse aspecto. Se consultarmos o relógio num dia cinzento, quando o sol não está brilhando, não poderemos saber as horas. O relógio tem somente figuras; não há mensagem alguma. Mas quando o sol aparece e ilumina o relógio, imediatamente o ponteiro marca e nós podemos saber as horas.

Do mesmo modo, se lermos as Escrituras num dia cinzento, quando há nuvens entre Deus e nós, o livro mostrará apenas papel e letras; não há mensagem alguma. Mas quando as nuvens se levantam e sol aparece, a luz do Espírito brilha nas páginas impressas e na nossa mente, e Deus fala por intermédio de sua Palavra.

A Palavra e o Espírito formam uma unidade. Não devemos separar o que Deus uniu.”

(STOTT, John, O chamado para líderes cristãos, ECC, 2ª ed., 2018, pp.55-56)

O seminário de sofrimento de Martinho Lutero

Ao falar sobre nossas lutas e provações para lermos e compreendermos a Palavra de Deus, John Piper cita o texto a seguir sobre o exemplo das provações na vida de Lutero.

“Salmo 119:71: ´Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos´. A experiência de sofrer não somente requer uma aplicação dos estatutos de Deus, mas também oferece discernimento sobre esses estatutos. Martinho Lutero escreveu, talvez mais do que ninguém, sobre a necessidade de sofrimento em fazer de alguém um bom intérprete da Bíblia. Ele disse:

´Quero que você saiba como estudar teologia da maneira correta. Tendo eu mesmo praticado este método… Aqui você encontrará três regras. São propostas frequentemente no Salmo [119] e são estar: oratio, meditatio, tentatio (oração, meditação, provação)´.

E Lutero chamava as provações de ´critério´. Provações, ele escreveu, ´nos ensinam não somente a saber, mas também a experimentar quão correta, quão doce, quão amável, quão poderosa, quão reconfortante é a Palavra de Deus: sua sabedoria é suprema´. Ele mesmo provou o valor das provações, repetidas vezes, em sua própria experiência:

´Logo que a Palavra de Deus se torna conhecida de você, o Diabo o afligirá, fará de você um verdadeiro doutor e o ensinará, por suas tentações, a buscar e a amar a Palavra de Deus. No que diz respeito a mim mesmo… devo a meus papistas muitos agradecimentos por me atacarem, pressionarem e amedrontarem, pela fúria do Diabo, de tal modo que me tornei um teólogo razoavelmente bom, conduzindo-me a um alvo que eu nunca teria atingido´.

(…) Muito frequentemente, sou tentado a pensar que pressões, conflitos e frustrações são apenas distrações do negócio de estudar e entender. Lutero (e Salmo 119:71) nos ensina a ver tudo de outra maneira.

(PIPER, John“Lendo a Bíblia de modo sobrenatural”. Editora Fiel, 2018, pp.498–500)

Não consigo ter vontade de ler a Bíblia. O que fazer?

“Inclina-me o coração aos teus testemunhos e não à cobiça” – Salmo 119:36

Em seu livro “Lendo a Bíblia de modo sobrenatural” (Editora Fiel), o pastor John Piper compartilha sobre como manter ou (re)acender o desejo pela meditação/leitura na Palavra de Deus. Se você tem lutado com isso, esse texto é para você.

“´Inclina-me o coração aos teus testemunhos.´ Com o passar dos anos em meu ministério pastoral, muitas pessoas têm se queixado de que não têm motivação para ler a Bíblia. Têm um senso de dever, mas não o desejo. É notável quantas dessas pessoas acham que a ausência de desejo é o golpe final na meditação prazerosa na Palavra de Deus.

Quando lhes peço que descrevam o que farão a respeito do problema, elas olham para mim como se eu não tivesse compreendido o problema. O que podemos fazer a respeito da ausência de desejo, elas perguntam. “Não é uma questão de fazer. É uma questão de sentir”, elas reclamam. O problema desta resposta é que essas pessoas não somente perderam o desejo pela Palavra de Deus, mas também perderam de vista o soberano poder de Deus. Estão agindo como ateus práticos. Adotaram o tipo de fatalismo que ignora a maneira como o salmista orou.

Evidentemente, o salmista também sentia esta horrível tendência para se afastar da Palavra de Deus. Evidentemente, ele também conhecia o esfriamento do desejo e a tendência de seu coração para se inclinar mais a outras coisas – em especial, o dinheiro. Se não, por que ele teria clamado: “Inclina-me o coração aos teus testemunhos e não à cobiça”? Ele estava insistindo com Deus que lhe desse desejo pela Palavra. O salmista sabia que, em última análise, Deus é soberano sobre os desejos do coração. Por isso, ele clamou a Deus que fizesse o que não podia fazer acontecer de si mesmo. Isto é a resposta ao fatalismo. É a resposta a agir como um ateu – como se não houvesse um Deus que governa o coração e que pode restaurar o que perdemos.

Não posso enfatizar demais como nossa real incapacidade deve ser acompanhada do clamor diário para que Deus desperte e sustente nosso desejo de ler sua Palavra. Muitos de nós são passivos no que diz respeito a nossas afeições espirituais. Somos fatalistas práticos. Pensamos que não podemos fazer nada. ´Oh! Bem, hoje não tenho nenhum desejo de ler a Bíblia. Talvez amanhã eu o tenha. Vejamos.´ E saímos para o trabalho.

O salmista não pensava nem agia dessa maneira. Não foi assim que agiram os grandes santos da história da igreja. A vida é guerra. E as principais batalhas são travadas no nível dos desejos e não das obras. Quando Paulo disse: ´Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena´, ele incluiu na lista ´paixão lasciva, desejo maligno e a avareza´ (Cl. 3:5). Estes são os grandes destruidores do desejo pela Palavra de Deus. O que Jesus disse que remove o nosso desejo pela Palavra? ´Os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra´ (Mc. 4:19). Paulo nos ordena matar essas ´demais ambições´, antes que elas nos matem. Paulo não nos incentiva a sermos passivos ou fatalistas. Ele nos encoraja a lutarmos por nosso desejo pela Palavra de Deus.

E o primeiro e mais decisivo golpe que podemos dar contra as ´demais ambições´ que ´sufocam a palavra´ é o clamor diário para que Deus ´incline´ nosso coração à sua Palavra e não à ´cobiça´. Não espere até que tenha perdido o desejo para começar a orar por este desejo. Se o desejo estiver presente, dê graças e peça a Deus que o preserve e o intensifique. Se você sente que seu desejo está esfriando, peça a Deus que o aqueça. E, se o desejo já se foi, e você não sente nenhum desejo de orar, faça o que pode. Arrependa-se. Conte a Deus que você está triste pelo fato de que o desejo pela Palavra está morto. Diga-lhe como você se sente. Ele já sabe. Peça-lhe – e isto é possível sem hipocrisia por causa da ´semente incorruptível´ (1 Pe. 1:23) que permanece nos filhos de Deus. Peça-lhe o desejo que agora você quase nem consegue ter vontade de pedir. Ele é misericordioso.”

(PIPER, John. “Lendo a Bíblia de modo sobrenatural”. Editora Fiel, 2018, pp.330-332)

O enredo da salvação

Neste sábado (22/10), a partir das 10h na Comuna Batista teremos uma manhã de aprendizado com o pr. Bernardo Cho (professor do Seminário Servo de Cristo e pastor da Igreja Presbiteriana Caminho, SP), falando sobre seu livro “O enredo da salvação” (Editora Mundo Cristão).

Esse livro foi uma das minhas melhores leituras no ano passado. Com recomendações de Christopher Wright (o conheci quando ainda era reitor do All Nations College, atual diretor da Langham Partnership International, ministério que cuida do legado do rev. J. Stott); N. T. Wright (teólogo inglês e autor de diversos livros já publicados no Brasil) e de meu amigo Ziel Machado (vice-reitor do Seminário Servo de Cristo) entre outros.

Venha participar conosco. Invista esse tempo em seu crescimento no conhecimento da Palavra. Evento é gratuito.

Compartilho a seguir alguns trechos logo do início do livro para te encorajar nessa rica leitura.

“(…) à medida que comecei a estudar a Bíblia, logo percebi que o evangelho é muito mais amplo do que eu havia aprendido anteriormente. Para minha surpresa, o ´plano maravilhoso de Deus´ não é meramente para ´minha vida´, mas para o universo inteiro – o projeto divino é cósmico. Consequentemente, Deus deseja não apenas ´se relacionar comigo´, como também concretizar um propósito para toda a criação. E o mais chocante de tudo é que a história contada nas Escrituras não pula do pecado de Adão e Eva diretamente para a cruz do Calvário. Nos primeiros dois terços da Bíblia, Jesus sequer dá as caras: muito antes de Cristo nascer, há o chamado de Abraão, a formação de Israel, o governo dos reis, a pregação dos profetas, o evento do exílio – e muito mais. O próprio Jesus, quando enfim entra em cena, é condenado à morte somente depois de ter afirmado e realizado várias coisas importantes. E não podemos nos esquecer do papel crucial que o Espírito Santo desempenha na Igreja e por meio dela após a ressurreição de Jesus.

O ponto é que, se não concebermos o cerne da mensagem cristã a partir do contexto todo-abrangente do enredo bíblico, cometeremos o sério erro de reduzir o evangelho a algo menor do que ele realmente é. E, quando isso acontece, toda nossa vida fica comprometida: nossa visão de Deus se torna limitada, nossa percepção sobre nós mesmos se distorce, nossos relacionamentos perdem o norte, nossa maneira de entender a vocação cristã se empobrece, e nosso envolvimento no mundo – seja na esfera profissional, social, política, cultural, ambiental ou econômica – perde completamente o sentido.

(…) um evangelho que não contempla a totalidade da existência humana prova-se totalmente incapaz de dar coesão à realidade fragmentada ao nosso redor.

(…) Muito longe de formarem um compêndio de proposições abstratas, as Escrituras são o relato de como o Criador de todo o cosmo conduziu a história humana, entrando ele mesmo nessa história, para se revelar e redimir sua criação.

(…) conquanto a Bíblia contenha uma variedade considerável de livros em diferentes gêneros literários, ela não apenas se apresenta predominantemente na forma narrativa, como também nos conta uma história que é profundamente coerente, a despeito de seus ´altos e baixos´. Seja lá qual for o texto bíblico que estivermos lendo – um salmo, um provérbio ou uma epístola – há uma narrativa sempre implícita.

(…) o senhorio de Cristo toca cada canto do cosmo criado por Deus.”

(CHO, Bernardo. O enredo da salvação. Ed. Mundo Cristão, 2021, pp.18-19,22)

Por que se enfurecem as nações

Estou lendo e aprendendo muito com o livro “Por que enfurecem as nações: reflexões sobre fé e política em tempos de polarização”, escrito pelo pelo pastor americano Jonathan Leeman, doutor em teologia e política, mestre em teoria política e diretor editorial do ministério 9Marks, além de ser presbítero na Cheverly Baptist Church, em Washington, DC.

Pulicado pela Thomas Nelson Brasil, esse livro trata com muito cuidado um tema atual e nos convida a uma reflexão profunda, ampla e necessária sobre o tema. Leeman já tem diversos livros publicados em português com temas mais voltados a eclesiologia, mas gostaria de destacar algumas frases, apenas do primeiro capítulo desse novo livro, para encorajá-lo nesta leitura.

“Igreja e Estado são instituições distintas providas por Deus e devem permanecer separadas. Toda igreja, porém, é uma organização política em todos os aspectos. E todo governo é um campo de batalha entre deuses, de modo a ser profundamente religioso. Ninguém separa sua política da sua religião, seja cristão, agnóstico, ou um progressista secularizado. Isso é impossível.”

(LEEMAN, Jonathan. “Por que se enfurecem as nações: reflexões sobre fé e política em tempos de polarização”, Thomas Nelson Brasil, 2022; p.27).

“Primeiro seja, depois faça. Não venha me dizer que você está interessado em política se você não procura ter uma vida mais justa, reta e apaziguadora com todos que fazem parte de seus círculos mais próximos.” (Ibid. p.30).

“A política deveria começar com cada um de nós colocando de lado as espadas verbais que podemos ser tentados a brandir contra outros membros da igreja que votem diferentemente de nós. Qualquer impacto político que nossos irmãos na fé possam ter na igreja e por meio dela durará para sempre. É excelente a forma como meu pastor principal, Mark, coloca: ´Antes e depois dos Estados Unidos, houve e haverá a igreja. Nossa nação é um experimento. A igreja é uma certeza´.

Quando digo que devemos ser antes de fazer, quero dizer que a igreja local deve primeiramente se empenhar para viver a justiça, a retidão e o amor em unidade. Somente então ela pode recomendar seu entendimento de justiça, retidão e amor à nação.

(…) quero mudar nosso enfoque de redimir uma nação para viver como uma nação redimida. (…) Nossa vida no meio da congregação deve nos ensinar sobre a justiça e o amor que Deus deseja para toda a humanidade. Então, as lições que aprendemos dentro da igreja esclarecerão nossa ação pública fora dela.” (Ibid. p.31).

“Quero que o povo de Cristo siga a Cristo em todas as áreas da vida, inclusive quando desempenham as funções de eleitores, servidores públicos, lobistas, jornalistas, juristas e cidadãos.” (Ibid. p.35).

“Seu batismo declara que você foi sepultado e ressuscitado com Cristo, devendo representar a virtude, a justiça e o amor dele em todo lugar que for.

A postura política cristã, em poucas palavras, não deve jamais ser a de se abater. Nem a de prevalecer. Deve sempre ser a de representar, e devemos fazê-lo quer o mundo nos ame ou nos despreze. Qualquer um que lhe diga: ´Recue, estamos perdendo!´ ou ´Avance, estamos ganhando!´ provavelmente já sucumbiu a um tipo de utopismo, como se fosse possível construirmos um céu na terra. Em vez disso, o céu começa em nossos cultos, ainda que como um mero reflexo turvo. Os cristãos, são embaixadores do céu e nossas igrejas são suas embaixadas. Nem pânico nem triunfalismo nos caem bem – já uma alegre confiança sim. Representamos esse reino celestial futuro no tempo presente, esteja o horizonte nublado ou límpido.” (Ibid. p.36).